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Mortágua Arena: Entre espetáculo e estratégia – Os melhores e piores da primeira especial do WRC em Portugal

No dia 16 de maio de 2025, segundo dia do Vodafone Rally de Portugal, rumei à Mortágua Arena para assistir ao que prometia ser uma especial recheada de emoções. Este troço, integrado na PEC 2, que só tive oportunidade de conhecer no ano passado, está rapidamente a ganhar um lugar especial entre as zonas de espetáculo do nosso rali. E este ano, a organização local e a Câmara Municipal de Mortágua elevaram a experiência a outro nível: acessos mais diretos, estacionamento bem dimensionado e uma estrutura pensada para evitar que os adeptos tenham de madrugar – ou pior, dormir no carro – só para garantir lugar. São estes detalhes que fazem a diferença e que mostram respeito pelo público que faz quilómetros para apoiar a festa do rali.

Ainda assim, vale recordar que no ano passado a experiência ficou muito aquém do desejado. Só conseguimos ver os WRC e alguns WRC2, devido a dois acidentes logo no arranque da PEC 2, entre a partida e a Mortágua Arena, que obrigaram à anulação da especial, já que não havia espaço para retirar os carros em segurança. Este ano, felizmente, a história foi bem diferente. Tivemos direito a mais de 80 carros a passar na Arena nesta primeira especial, embora, como seria de esperar, o número tenha vindo a cair ao longo do dia com acidentes e avarias que fazem parte da dureza do Rally de Portugal.

Pude ver de tudo: os brutais WRC1, os talentosos WRC2 e os aguerridos pilotos do Campeonato de Portugal de Ralis (CPR). E foi no CPR que se sentiram bem as diferentes abordagens. Armindo Araújo foi o exemplo da segurança e consistência. Passou pela Arena sem arriscar e sem entusiasmar, ao ponto de só ter percebido quem era quando já tinha o carro praticamente à frente. Do outro lado, Ricardo Teodósio. Um verdadeiro showman. Entrou para dar espetáculo e quase hipotecou o arranque do seu dia. O primeiro gancho foi largo, depois de um salto a mais velocidade do que o aceitável. Excelente para o público, mas custou-lhe segundos preciosos. José Pedro Fontes, sempre sólido, trouxe uma condução limpa, sem riscos, mas com algum brilho. Já Gonçalo Henriques voltou a mostrar porque é uma das grandes revelações do nacional: entrou com garra, soube onde arriscar e onde respeitar o traçado. Ao volante do Hyundai, deu um grande momento ao público presente.

Diogo Salvi, este ano a competir em WRC1 com o Ford Puma Rally1, manteve a sua postura descontraída. Continua a não parecer preocupado em lutar pelos tempos ou pela classificação, limitando-se a aproveitar a experiência. Está nos lugares do fundo da geral do WRC1 e, honestamente, parece que o objetivo é mesmo esse: terminar e viver o momento.

Quando os gigantes do WRC entraram em cena, a Mortágua Arena explodiu de emoção. Aqueles carros continuam a desafiar as leis da física. Potência descomunal, velocidades que num troço como aquele parecem irreais, e aquela sensação única de ver máquinas que roçam a perfeição a passarem a poucos metros. Ott Tänak e Kalle Rovanperä mostraram porque são dois dos favoritos ao título, com passagens intensas e sem margem para dúvidas. Já Elfyn Evans, que vinha de duas vitórias em três ralis, começou por liderar o rali após vencer a superespecial de abertura na Figueira da Foz. No entanto, ao longo do dia, enfrentou grandes dificuldades, perdendo bastante tempo e ficando longe do ritmo dos da frente. Foi uma abordagem claramente estratégica, de quem sabe que abrir o rali em Portugal é tarefa ingrata e que há que sobreviver para poder atacar nos dias seguintes. Terminou o dia em 7.º da geral, depois de uma jornada onde foi obrigado a limitar danos em classificativas com muita terra solta e condições difíceis.

E é precisamente aqui que sinto necessidade de refletir: o WRC mudou. O Rally de Portugal continua a ser uma festa única. O público enche as serras, os convívios continuam, as tendas, os jipes, tudo isso está lá. Mas no que toca à essência da corrida… sinto que a evolução da segurança, das regras e da própria mentalidade das equipas tirou parte do charme, da ousadia, da loucura que tão bem caracterizava este desporto. Não me interpretem mal: a segurança tem de estar sempre em primeiro lugar. Mas não posso deixar de sentir que, sobretudo em locais como a Mortágua Arena, onde temos um traçado curto, técnico, feito para o espetáculo, a primeira passagem é muitas vezes encarada de forma demasiado fria e calculada.

A estratégia domina. As equipas pensam tudo ao milímetro. O espetáculo ficou, em muitos casos, secundário. E isto agrava ainda mais a diferença entre as equipas de topo e as restantes. Se antes ainda havia espaço para um David desafiar um Golias, hoje a diferença de meios é tão gritante que quase nem se sente essa ilusão. Não quero com isto dizer que antes era tudo romântico e hoje é só negócios – mas, sejamos sinceros, o WRC atual é dominado pelo poder financeiro.

Ainda assim, foi interessante ver, num espaço tão pequeno, as várias facetas do rali: quem arrisca pelo público, quem gere como se de xadrez se tratasse, e quem, como Salvi, está ali apenas pelo prazer de guiar. E é essa diversidade que, apesar de tudo, mantém acesa a chama do WRC.

Mas saí da Arena com aquele sabor agridoce: foi um grande espetáculo, mas podia ter sido mais.

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